"Lugares antigos, novos usos: a reinvenção da memória"
Aqui descansaram vidas anónimas. Gentes incógnitas que o tempo fez esquecer. Foram estes os filhos antigos de uma geração que viveu filha do seu próprio tempo, da sua realidade periférica, de um Algarve antigo, esquecido num cantinho do mundo. Aqui repousaram em segredo as vozes de uma outra era, num tempo de renovação mental. Uma recente preocupação – a saúde pública – resultante de uma moderna consciência europeia, viria a ditar por esta altura uma nova obrigatoriedade: doravante, não mais se poderiam enterrar corpos no interior das igrejas ou nas suas imediações. Conquista difícil de se alcançar, já que os enterramentos nas igrejas garantiam o acesso aos céus, mas muitos eram agora os vizinhos, cada vez mais, e, por isso mesmo, havia que perceber que os cemitérios públicos eram de facto uma necessidade. Foi assim em Cacela e em muitos outros sítios, e foram estas as premissas que viriam a impor a construção do Cemitério Antigo.
Corria a década de trinta do século XIX quando se ergueram aquelas paredes brancas que passariam a delimitar o espaço de enterramentos das populações locais, essas que não viriam a resistir um século depois, nos inícios do século XX, em finais da segunda década, à violência epidémica da gripe pneumónica. Muitos foram os que sucumbiram à sua força, que dizimou praticamente toda a população, transformando aquele rectângulo de um branco imaculado numa vala comum para onde dezenas, talvez centenas de corpos foram atirados sem vida, sem nome, sem história e sem memória, à semelhança do que em muitos outros locais se passou.
Destes dias difíceis resta agora um espaço vazio, já que depois deste pesado momento histórico, haveria de ser construído o actual cemitério de Cacela Velha. Quase cem anos depois da última utilização, impera agora a necessidade de valorização de um importante espaço de memória, a sua dignificação, a atribuição de um novo uso, a revitalização.
Os cemitérios sempre tiveram uma carga simbólica que raras vezes permitiu a alteração  do uso para o qual foram concebidos, e não é fácil, pelo respeito que merece a morte nas nossas concepções mentais, a atribuição de uma nova utilização a um espaço que está intimamente associado ao sagrado. Na sua essência, são locais de projecção da memória, onde, de alguma forma, se torna possível a descodificação da nossa identidade e a percepção do sentido último da existência: vivemos porque morremos. Mas o que fazer com um espaço cuja função se perdeu já no tempo?
Para além da absoluta necessidade de recuperação desta interessantíssima forma de expressão de arquitectura tradicional, Cacela Velha tem necessidade de um espaço polivalente, de um local que permita a fruição cultural, que interfira e dialogue com a sua beleza, com a essência do lugar. É isso que se tem já tentado fazer, enquanto o projecto de reabilitação não avança, através da realização de exposições, sessões de cinema ao ar livre, concertos, espectáculos de teatro, palestras, convidando a comunidade a (re)descobrir-se e os visitantes a valorizar o património local. É discutível, sem dúvida, o caminho escolhido. Mas é uma forma de se evitar que o tempo impossibilite de vez a dignificação deste local e de facilitar a Cacela e à comunidade a reinvenção da sua memória através da reutilização de um espaço que, na sua origem, pretendia celebrar o passado. E que melhor forma de dar continuidade a esse propósito que não aproveitar o mesmo para proporcionar uma oferta cultural às populações?



Miguel Godinho
Técnico Superior de Património Cultural
Sócio da AGECAL
Associação de Gestores Culturais do Algarve